Enquanto o canal das Fan Fics não publica, vou postando aqui os primeiros capítulos de “A Mansão Invisível e o horror da escuridão” para vocês. Depois que for postado nas FanFics, visitem lá
Capítulo 01 – O acidente
“(…) Há cerca de 70 milhões de anos. Aqui à nossa esquerda, podemos contemplar esta pessoa mumificada que foi encontrada em um sarcófago egípcio, o que evidencia ser de uma família nobre, provavelmente de um…”
Prosseguia alegremente a nossa instrutora no Chicago’s Museum. Meu interesse e de Marcelo logicamente não estava concentrado nos fósseis nem nas múmias egípcias encontradas no arsenal do museu. Queríamos ver o Guarda-Roupa, fato que nos tinha levado a Chicago.
Depois de passar pela C.S. Lewis College, o nosso Guarda-Roupa tinha ido para o famoso Museu de Chicago, o que não sei se é bom ou ruim, já que os visitantes e turistas eram restritos a ficarem milhares de quilômetros de distância do Guarda-Roupa sem, ao menos, poder vê-lo.
“… na Idade Média. As armaduras também tinham um alto prestígio…”. Eu não agüentava mais ouvir a voz daquela mulher.
- Marcelo, eu vou embora. – desisti
- Ah, não. A gente demorou muito para conseguir estar aqui, para conseguir chegar aonde chegamos. Ela já vai terminar, você vai ver, Tella – insistiu Marcelo
- Se ela terminar hoje, né? Isso se esse negócio tiver um fim. – resmunguei
- Isso porque é amante da História! – riu Marcelo
- Sim, mas meu interesse aqui e agora, é outro. – rebati
“… até hoje. Pedimos que nos acompanhem até o segundo andar, para prestigiarmos agora, as relíquias encontradas nos feudos. Por aqui…”. E a instrutora feliz mostrou o caminho por um corredor que levava ao segundo andar do museu. Eu estava extasiada.
- Vamos ter que procurar. – decidi
- Ah sim, para depois sermos presos e suspeitos de terrorismo, sendo até levados ao FBI? – disse Marcelo
Marcelo era prático, pensava nas coisas do ponto de vista rápido, racional e lógico. Eu estava procurando o Guarda-Roupa; ele também. Eu estava ansiosa; ele também. Porém, diferente de mim, Marcelo sabia que se eu fizesse algo irracional, como sempre fazia, estando em uma situação, como estar fora do seu país e ver algo proibido pela instituição, não seria nada legal. Eu podia ser presa. Ainda mais estando nos Estados Unidos.
Enquanto andávamos até o segundo andar do prédio, eu continuava com minhas especulações interiores.
Marcelo era meu amigo; sempre o fora. Era uma pessoa com a qual era impossível se sentir infeliz. Era alegre, parecido comigo e tinha em seu semblante um sorriso que sempre iluminava o dia.
Eu, porém, nunca fora alguém normal ou parecido com uma pessoa que conhecesse, eu sempre fugia à regra, quase em todos os aspectos. Exceto meus pais, Marcelo era meu único amigo. Com ele, eu me sentia bem, eu era eu mesma. Compartilhávamos dos mesmos interesses e pensávamos de forma idêntica em quase tudo. Nos dávamos muito bem. Eu o amava. Marcelo, para mim, era “a amiga” que eu nunca tive porque, em geral, eu nunca me dera bem com as meninas. Eu era um ET e não tinha problemas em lidar com isso.
Na escola, nunca fui popular muitos menos alguém “legal” do ponto de vista dos meus colegas. Sempre sensível demais, o que me fazia chorar tanto quando estava triste, feliz ou irritada. Em dias de passeios da escola, eu ficava em casa lendo a Bíblia, estudando e viajando nos meus livros. Eu era feliz assim.
Marcelo vivia com seus pais e adorava a tecnologia; entendia absolutamente tudo que envolsse computadores e edição de vídeos! Era viciado em Harry Potter e adorava ler histórias fantásticas.
Como eu, Marcelo não se dava bem com pessoas do mesmo sexo, logo, ele só tinha amigas. Com este fato, nos tornamos melhores amigos.
Quando resolvi cursar História depois do Ensino Médio, decidi com meu melhor amigo, que iria até Chicago atrás do Guarda-Roupa. Essa experiência poderia ser interessante no futuro, na carreira. Mas é claro que não era esse o motivo que me levava aos EUA.
Marcelo era como eu, acreditava em Nárnia e em nossas fantasias mágicas. Juntamos dinheiro e conseguimos apoio de nossa família. Fizemos a viagem de forma divertida, como sempre.
Era impossível não rir com Marcelo por perto. Ele era como o sol, me iluminava sempre que precisava. Era um porto seguro, era um alicerce. Quando tudo estava péssimo e eu me sentia perdida na sociedade com crises de histeria, Marcelo sempre estava ali.
Minha rápida reflexão sobre a vida e a amizade com Marcelo, para meu espanto, coincidentemente ou não, fez com que algo acontecesse e distraísse a instrutora. Algo com o qual posteriormente, fiquei profundamente grata.
Enquanto eu delirava e me mantinha alheia à realidade, como de costume, não havia percebido que a luz da rua do museu havia acabado. Só fiz isso quando o apagão atingiu o interior do museu. Caos total.
- Senhores turistas, mantenham a calma, temos tudo sob controle… – começou o segurança do museu, que foi logo interrompido por um barulho que logo reconheci como um gatilho.
- Todo mundo no chão! – gritou uma voz rudimentar e rouca – Sem gritar, sem gemer, sem correr. Deitem no chão, agora! – continuou a estranha voz masculina. – Ei, você, ache uma lanterna para mim, se vire. – ordenou a voz ao segurança, cujos gemidos eram audíveis.
Ótimo, estávamos rendidos por um assaltante que sequer podíamos ver.
- Vou ligar para a polícia. – comecei
- Você enlouqueceu? – soluçou Marcelo – Se esse cara escuta alguém ligando pra polícia, ele começa a atirar para todos os lados.
Perfeito, então. Estávamos rendidos em um museu, perdidos na escuridão sem poder ligar para a polícia. Sim, estávamos nos Estados Unidos da América.
Era o pior momento para minhas ironias idiotas.
- Estamos em Chicago ou no Rio de Janeiro? – ri
- Estella, não é hora para suas piadas. – disse Marcelo.
Não era mesmo.
Ouvi passos em minha direção e repentinamente uma luz ofuscante – para meu espanto, já que estávamos perdidos na escuridão. Acredito ter desmaiado por longos 5 minutos, pois quando meus sentidos voltaram, eu estava deitada no chão ao lado de Marcelo. Agora reinava o silêncio, diferente de 5 minutos atrás, quando tudo que se ouvia, eram sirenes, gatilhos, gritos e gemidos. O caos.
De repente, me lembrei do que me levara a Chicago.
- Marcelo, o guarda-roupa! – gritei
- Claro! Como não pensei nisso… Corre, Estella, corre!… – disse Marcelo animadíssimo.
E então nos levantamos entusiasmados, indo atrás do nosso guarda-roupa para que este nos servisse de esconderijo, como fez aos Pevensie. O mesmo pelo qual Lúcia chegou à Nárnia.
Seria o guarda-roupa capaz de nos proteger do assaltante? Até hoje não encontrei essa resposta.
Corríamos até não termos mais forças, virávamos corredores e salas e nada da preciosidade.
Fiquei espantada e surpresa com a disposição de Marcelo, que antes, era contra minha idéia de achar o guarda-roupa ilicitamente. No entanto, agora, ele corria ao meu lado atrás do que nos levara aos Estados Unidos: o velho guarda-roupa de C.S.Lewis que continha uma placa: “Entre por seu próprio risco”.
Sempre acreditei na veracidade de Nárnia, como em suas histórias, personagens, tudo. Nunca fui capaz de duvidar de sua existência, nem um instante sequer. Porém, mesmo com toda a fé que eu depositava em Nárnia, inúmeras situações de minha vida me fizeram esmorecer em minhas crenças.
Eu havia crescido, estava com 16 anos. Já não era mais uma criança que entrou em seu próprio guarda-roupa procurando uma terra mágica. Mesmo porque, Nárnia era muito mais do que uma terra mágica ou um reino fictício para mim. Sempre foi algo além de minha inútil compreensão.
Todavia neste momento, era diferente. Eu estava correndo atrás da velha construção de Digory, ao lado do meu melhor amigo. Eu tinha certeza de que estava ali. Era tudo concreto agora, não mais imaginação de minha parte ou um sonho. Era isso que me fazia correr, correr até não ter mais oxigênio.
O que mais era peculiar para mim neste instante, era o cessar das vozes. Quando estávamos no saguão principal, subindo para o segundo andar, ouvíamos vozes, gemidos, gritos, sinais de que a polícia estava chegando, o caos. Agora não havia nem gritos, nem vozes, nem gemidos, nem caos, nem nada. Estávamos mergulhados em um profundo silêncio.
Cansados de correr, começamos a andar.
- Marcelo, tem certeza de que é aqui que está o guarda-roupa? – duvidei
- É, Estella. “Chicago’s Museum”, não há outro em Chicago, que eu saiba. – disse Marcelo com incerteza.
- Então temos de achar, mesmo porque temos de continuar vivos. – respondi – Marcelo, você percebeu? Aconteceu alguma coisa, não é possível! Eu desmaiei? Ouvi passos na minha direção depois, uma luz forte. Depois eu acordei e estava deitada do seu lado…O que aconteceu? – perguntei
- Não sei, Tella. Senti a mesma coisa. Uma luz insuportável, parecia o sol, vindo em minha direção. Depois disso, acredito ter perdido os sentidos…Estranho! Não me lembro de nada… – respondeu meu amigo, desacreditando em suas próprias palavras.
Estávamos agora em um salão que antes estava vazio, eu tenho certeza. De repente, quase desmaiei. Enquanto conversava com Marcelo, não tinha percebido o que havia atrás dele. Lá estava a semente de todos os meus sonhos e aspirações em meu mundo. Não conseguia dizer uma palavra,
- Marc… – solucei.
- O quê? – disse ele, virando-se bruscamente para trás.
E então neste momento eu tive vontade de chorar, de rir, de pular, de correr, de ficar parada. Eu estava de frente para um guarda-roupa. O guarda-roupa. O meu guarda-roupa, exatamente como imaginei em todos os meus sonhos da infância.
Um guarda-roupa colossal, daqueles que tem duas portas e várias gravuras em relevo ao longo do móvel. Sem perceber, eu e Marcelo nos aproximamos e o olhamos mais fixamente, mais profundamente, mais pessoalmente.
De súbito, ouvimos vozes. “Ah, claro que são eles.” “Feche a boca, Crátus! Você nunca sabe dizer algo útil” “Ah, não comece com isso, Cairos! Você sempre acha que está certo…”.
Não eram vozes humanas, eu tinha certeza disso.
- Marcelo, o que é isso? Você ouviu? – berrei
- Agora, Estella! Entra, rápido… – disse Marcelo abrindo a porta do guarda-roupa
Pulamos para dentro do móvel, sem fechar a porta, obviamente. Todas as pessoas de juízo sabem que é uma completa tolice fechar-se dentro de um guarda-roupa.
As vozes que tínhamos escutado, pareciam vir de dentro do guarda-roupa. Porém, no instante em que adentramos, as vozes cessaram. Começamos a andar para o fundo, a fim de nos escondermos das horríveis e roucas vozes que tínhamos escutado um minuto atrás, ou dez não lembro… Perdi, estranhamente, a noção do tempo sem uma explicação lógica.
Continuamos andando para o fundo do guarda-roupa, que parecia não ter fim, apavorados com as vozes misteriosas. Seria o assaltante?
Em virtude do medo, eu me esqueci completamente de que estava dentro do guarda-roupa. Aquele guarda-roupa dos meus sonhos.
- Meu Deus! Isso é um corredor ou um guarda-roupa? – resmungou Marcelo
- Está sentindo esse cheiro de terra? Tem alguma coisa esparramada aqui no chão. – parei para examinar – É terra, veja!
Marcelo examinou o punhado de terra em minhas mãos.
- Mas que sujeira! Quando sairmos daqui, vou reclamar para a administração desse museu! Imagine só, um guarda-roupa do maravilhoso Clive Staples Lewis cheio de terra! Isso é uma falta de respeito! – tagarelou Marcelo.
Eu tinha estranhas sensações. Era como se eu estivesse me esquecendo de algo fundamental que nos levara ali. Um detalhe que faria toda a diferença e daria sentido àquela loucura misteriosa pela qual estávamos passando.
Eu pensava ter perdido os sentidos e visto uma luz na minha frente. Depois disso, me vi ao lado de Marcelo em um profundo e apavorador silêncio. Depois disso, comecei a correr pelo museu com meu amigo, pois nos lembramos de que o guarda-roupa que procurávamos, poderia nos servir de esconderijo, mister que o museu estava sendo assaltado e que portanto, corríamos risco de morte ali.
Posteriormente, eu pensava ter ouvido vozes. Vozes estranhas e roucas; uma parecia sair do fundo da terra. Eu e Marcelo tivemos medo das vozes e ao mesmo tempo, medo que nos descobrissem ali, ilicitamente quase entrando no guarda-roupa. Com isso, nos metemos no móvel.
Agora eu sentia um cheiro de terra e outro de árvore. O fundo do guarda-roupa parecia um corredor sujo de terra e eu estava apavorada. Percebi que Marcelo estava desesperado, pois andava mais rápido. O que mais me incomodava era a escuridão.
Continuávamos andando, quando tropecei em algo e caí com o dorso ao chão.
Eu não estava mais no fundo de um guarda-roupa, mas em uma floresta em plena primavera. Podia ouvir o canto dos pássaros e o curso de um rio próximo dali.
Abri os olhos e olhei para cima. Tudo que pude ver foi um lindo céu azul com maravilhosas nuvens de algodão.
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Bruna Amorim




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